Jornal - 'La Vanguardia' - 2000
Passam-se quatro anos desde Evita. Por que esperou tanto
tempo pra fazer outro filme?
Foram combinações de várias coisas.
Por um lado, quis passar mais tempo com minha filha. E segundo
eu estava interessada em fazer um filme que me sentisse totalmente
identificada, que me trouxesse um desafio e me fizesse sentir
bem como atriz. Depois de fazer 'Evita' com Alan Parker senti
que não poderia fazer nada que fosse inferior a esse
filme. Nada me apareceu, até que chegou o projeto de
'Sobrou Pra Você' e senti que era o momento de voltar.
Você não se preocupa que os expectadores
não esqueçam que estão vendo a Madonna
quando estiverem assistindo 'Sobrou Pra Você'?
Um pouco, mas por outro lado estou totalmente
consciente que este personagem não é muito diferente
do que a maioria das pessoas pensam de mim. Por isso estou
segura que no começo do filme terá muita gente
que não irá separar a protagonista de Madonna.
Mas na metade do filme essa noção se perde e
o expectador se esquece que está vendo a Madonna.
Qual a diferença do sucesso entre sua carreira
musical com a sua carreira cinematográfica. Você
sofre muita pressão na hora de escolher um papel?
Pode ser. Creio que as pessoas preferem muito mais a minha
carreira de cantora do que de atriz. É algo que não
acontece só comigo, acontece com qualquer um que tenha
feito sucesso em apenas uma área. Quando você
quer provar que é capaz de sair da sua área,
ninguém te leva a sério. Algo parecido aconteceu
com Michael Jordan quando anunciou que iria provar seu sucesso
no Baisebol.
O que você busca em um roteiro de um filme?
Um bom texto, bons personagens e uma trama que me interesse.
Tem que ser uma trama original, porém deve ter conteúdo.
Não busco um tema em particular, só um bom roteiro,
porque pra mim não há um bom filme sem um bom
roteiro. É o elemento mais importante da arte cinematográfica.
O sucesso está na mensagem que transmite o filme. Por
exemplo, não me interessa estar em um filme que promova
violência. Tampouco quero estar em um filme que busca
o golpe baixo sem razão nenhuma. Não me interessa
fazer um filme porque me pagam em altas quantias em dinheiro
ou só porque tenha sucesso garantido.
Então o que a leva a decidir se é ou não
um bom roteiro?
Que seja um desafio pra mim. Primeiro
me pergunto se vou ganhar alguma experiência, o depois
se vou fazer coisas que nunca fiz antes, o terceiro é
se pode ser uma inspiração. Sempre penso nessas
questões, em se tratando de um longa-metragem ou de
um filme para a TV.
Sempre quis ser atriz?
Sempre. Adoro atuar, e adoro a arte cinematográfica.
Quando comecei minha carreira, nunca pensei que seria uma
cantora. Eu estudei interpretação e também
era bailarina. Por alguma razão me abriram portas como
cantora, coisa que eu jamais imaginava acontecer. Fui a uma
apresentação para uma comédia musical
e a partir dali comecei a cantar. A vida me levou por este
caminho.
Até que ponto ser mãe afetou sua carreira?
Muitíssimo. No caso de Sobrou Pra Você, uma
das razões por eu ter insistido que o filme fosse filmado
em Los Angeles foi para poder estar todas as noites em casa
com minha filha. Foi um tanto cômodo da minha parte,
mas a partir da chegada de minha filha minha vida foi influenciada
totalmente por ela. Resolvi fazer menos shows, por exemplo,
e limitar as viagens ao mínimo possível. Tenho
que ser muito mais organizada com meu tempo. E o certo é
que eu nunca tenho tempo livre.
Sua filha é uma pequena artista?
Claro!!! A palavra "pequena" não lhe
cabe nada bem. Ela é muito boa cantora e bailarina.
Até chega me assustar um pouco que tenha tanto talento.
O que é mais importante pra você além
de ser mãe?
Escrever uma nova música, especialmente se é
boa.
É o que você está fazendo nesse momento?
Estou trabalhando em meu novo álbum. Não
sei quando sairá. É muito eletrônico,
porém muito melódico. Estou adorando.
Você esteve indicada ao Grammy por Beautiful Stranger.
Este prêmio em alguma importância para você?
A verdade é que durante 15
anos não me indicaram nenhuma vez. Por isso agora o
Grammy não tem tanta importância pra mim. Convenhamos,
os Grammy não são tão importantes, não
só eu digo isso, todo mundo sabe. E mesmo assim, as
pessoas não deixam de se entusiasmarem com ele. Para
começar, me parece muita pretensão escolher
quais são os cinco álbuns melhores do ano, ou
os melhores cinco filmes do ano. É algo totalmente
subjetivo.
Você sabe que na indústria da música
há uma certa discriminação a partir de
certa idade, o que você acha desses grupos de adolescentes
que vem dominando o mercado?
Acredito que a discriminação no mundo da
música é bem menor que no mundo do cinema. Basta
olhar a carreira de Cher e Tina Turner. Há muitas mulheres
que já tem certa idade porém e continuam muito
bem. E o mundo inteiro está contente pelo sucesso na
carreira dessas mulheres. Acredito que a diferença
do cinema é que pra fazer um filme você tem que
ser convidado, enquanto que na música você é
auto-suficiente. Cada um promove a si mesmo e com isso basta.
Chegou em um momento que você se aborreceu por chamar
tanta atenção?
O que acontece é uma grande confusão. Quando
era adolescente, eu era sempre uma boa estudante e garota
modelo. Nunca me rebelei contra meu pai. Nunca usei drogas
e deixei de ir a escola. Não me rebelei contra nada
até que completei os trinta. Nessa idade o que fiz
foi viver minha revolta com o meu sucesso.
Se arrepende desta fase?
Totalmente.
E agora qual é sua opinião frente a sua
vida?
Continuo sendo totalmente contra
tudo que é normal. Se meu público espera que
eu faça algo, faço totalmente tudo ao contrário.
Essa é minha natureza, não sei bem porque.
Houve em algum momento que você deixou de acreditar
que não teriam mais homens bons sobre a face da terra?
Com certeza, cada cinco minutos.
Mas pensou em esquecer dos homens e dedicar-se somente
a sua filha e sua carreira?
Não. Em alguns momentos pensei que todos os homens
fossem patéticos. E cinco minutos depois me coloquei
a pensar na realidade, não é que sejam patéticos,
é que são todos imaturos. Essa é minha
opinião. Todos os homens são imaturos, porém
não posso escapar deles. Preciso de um homem ao meu
lado. Sempre tem alguma qualidade que os redime. Quando tiver
que trocar um pneu por exemplo. Aí ter um homem por
perto nessa hora é extremamente útil.
Tradução: Jhonny Erdmann
Entrevista: Gabriel Lerman

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