POR MARIO LA TORRE FILHO
Uma vez li uma entrevista da tia dizendo que logo que se mudou para Nova Iorque experimentou os momentos mais solitários da sua vida. Não tinha amigos, morava num lugar minúsculo no norte da cidade, posava nua para estudantes e trabalhava em empreguinhos fuleiras comendo salgadinho e fruta de café da manhã.
A ambição já estava lá, queria ser famosa, queria ser amada, queria ficar rica (a própria admite isso nessas palavras) mas estar em Nova Iorque envolveu largar mão de várias coisas em Michigan: uma casa boa, a família, uma faculdade e a sensação de segurança que essas coisas passavam.
Claro que não deu certo no começo. Os 35 dólares do bolso acabaram, teve que morar de favor, foi rejeitada por várias cias de dança (seu objetivo inicial de ficar famosa), andou pelas ruas e tudo isso com o pai implorando para ela voltar pra casa e sair “daquela vida”.
O que me espanta e o que tento imaginar sempre é o que se passava na cabeça da Madonna de 20 anos andando sozinha por uma rua escura em Manhattan sem dinheiro, sem amigos e sem família. O que segurou a tia lá tentando feito louca se dar bem e levando porrada da vida, uma atrás da outra?
Tudo bem, todo mundo quer ter sucesso no que faz mas ela poderia muito bem largar tudo aquilo em NY e ir tentar outro sucesso perto da família, com melhores condições. Poderia ter terminado a faculdade, o que foi e ainda é sinônimo de segurança e futuro garantido na nossa sociedade (ok, já não é mais mas muitas pessoas ainda acreditam nisso). A maioria das pessoas opta por esse caminho pois inconscientemente queremos segurança e saber que na pior das hipóteses teremos algo para nos apoiar.
Madonna continuou diferente mesmo quando já tinha sucesso. Risco sempre pareceu um amigo e não algo que tinha que ser evitado e minimizado. Seja na exposição sexual, seja no pop cabeça e no pop eletrônico, a tia sempre esteve se jogando literalmente em novas direções e não se apegando ao que já dava certo ou o que dava certo para a maioria das pessoas.
Não sei se essa característica é algo que se nasce com ou se podemos desenvolvê-la durante a vida e adoraria tê-la no mesmo nível que a tia a tem mas, com certeza, isso fez toda a diferença na vida da Madonna, aliás, foi A diferença.
O interessante é notar, em algumas pessoas, esse brilho no olhar, uma espécie de certeza de que algo irá acontecer mesmo quando tudo está dando errado e que todos parecem seguir caminhos completamente opostos e mais “promissores”. Madonna tinha esse brilho, essa certeza.....fico admirado da sua capacidade de simplesmente seguir continuando.
Mário La Torre Filho,
26 anos, trying not to stop till I get my thrill.
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